Por dentro da mente da família Flordelis

Ao adotarem crianças em série e instrumentalizá-las para um projeto messiânico e político, a deputada e seu marido agiram como atuam líderes de seitas — deixaram que cada filho fosse crescendo sozinho e com seu próprio repertório emocional

A deputada federal e cantora gospel, Flordelis dos Santos Souza, e seu marido, o pastor Anderson do Carmo Souza, não adotavam filhos – colecionavam-nos. Isso explica, embora jamais justifique, o assassinato do pastor, segundo a polícia, por integrantes dessa exageradamente numerosa família. Quatro desses filhos são biológicos (três ela teve com o primeiro marido e um com o segundo), e cinquenta e um são adotivos: ao todo, cinquenta e cinco, portanto. Os muito românticos talvez vejam na atitude de Flordelis, que determinava as adoções, o puro sentimento de altruísmo. Engano. Na mais precisa definição do altruísta, o pensador Auguste Comte explicou que se trata de “inclinação instintiva”, com a vital ressalva de que “tal impulso jamais pode virar egoísmo”. Esse segundo aspecto o casal não observou, os adotados sempre foram exibidos como troféus de um projeto combinando política e messianismo, na linha de que não basta fazer o bem mas é imprescindível mostrar que se está fazendo o bem – a religião em si nada tem a ver com isso, o problema é o projeto que dela se faz: geralmente explosivo e desaguando em tragédias pessoais ou sociológicas. Pode ser que Flordelis se colocasse empaticamente no lugar das crianças psicossocialmente vulneráveis que ela adotava. Mas é preciso muita racionalidade nesses casos, sobretudo vivendo-se no Rio de Janeiro, cidade na qual os laços éticos há muito tempo o mar levou – perdão, agora eu é que estou sendo romântico, o correto é que há muito tempo os governantes levaram. Combine-se, então, pretensões políticas, intenções de notoriedade por meio da fé messiânica e a anomia do Rio de Janeiro, e tem-se o caso de Flordelis e Anderson. Tome-se o Velho Testamento: nele, ninguém teve mais filhos que Gideão – setenta ao todo! Um deles, Abileque, matou os outros sessenta e nove. Ciúme. Falta de atenção para com ele. Disputa de poder.

 

“Imagina o ambiente de confusão e guerra emocional contido nessa família”, declarou o pastor Caio Fábio D’Araújo Filho. “Não se pode sair pegando filhos em série porque se corre o risco de criar pequenas gangues familiares”. Como se vê, ainda que o casal fosse um poço de boa vontade, fez tudo errado. O certo teria sido montar uma creche com médicos, psicólogos, assistentes sociais e monitores, jamais tomar meninos e meninas como filhos. O pastor Anderson foi assassinado com trinta perfurações na madrugada de 16 de junho, dentro de sua casa, no bairro de Pendotiva, em Niterói. Logo após o sepultamento, a polícia prendeu Flávio, filho biológico, e Lucas, adotado. Flávio confessou ter atirado seis vezes em Anderson, Lucas foi quem comprou a arma. Ainda segundo a polícia, todos os cinquenta e cinco filhos e também a deputada são suspeitos e serão investigados, até porque surgiu a denúncia de que ela e três filhas estariam colocando medicamentos na comida do pastor. As autoridades seguem as linhas de investigações de crime com cunho passional (Anderson tinha nove perfurações na região genital); crime motivado por dinheiro; crime motivado pelo fato de Anderson ter assumido a frente de Flordelis no PSD.

Enfim, essas são questões da competência policial. Voltemos ao mergulho no universo psíquico, emocional e social da família, mergulho na cabeça dos que lá vivem, mergulho na obscura dinâmica (ou não dinâmica!) de uma família marcada por aquilo que um dos maiores psicanalistas de todos os tempos, Jacques Lacan, diagnosticaria como a “ausência da linguagem”, indispensável à construção dos indivíduos. Em toda família, mesmo nas padrões (mulher, marido e dois filhos), sempre há, geralmente de forma inconsciente, uma dose de tensão, ensinou o fundador da psicanálise, Sigmund Freud.

A história de Flordelis (simbolicamente representativa da Íris como descreveu Mirande Bruce-Mitford em “Signos e Símbolos”, lembrando que o rei Luís VII valia-se de tal flor para selar as suas missivas), começa em 1994. A Flor de Lis da nobreza parisiense virou a Flordelis da Favela do Jacarezinho, imortalizada em música de Jorge Ben Jor. Ela acolheu trinta e sete crianças que sobreviveram a um massacre na Cental do Brasil, sua atitude foi às telas do cinema, mas atrás veio a Justiça: mantinha a criançada em um local de dois cômodos. Flordelis mudou-se para instalações em lugar levemente melhor no Irajá, e, já casada com Anderson, enfrentou novos problemas judiciais. Recebeu a ajuda de um empresário e, dessa vez, foi para um apartamento. Finalmente, estabeleceu-se com os cinquenta e cinco filhos em Niterói. Nesse meio tempo, em 1999 ela fundou a Comunidade Evangélica Flordelis, em 2002 inaugurou a igreja do casal e tentou em vão eleger-se vereadora. No ano passado fez-se deputada federal, a quinta mais votada no Rio de Janeiro com duzentos mil votos. Anderson então teria assumido, contra a vontade dela, a sua agenda política, fazendo reuniões em Brasília sem a presença da esposa parlamentar. A política e o messianismo estavam claros demais.

O repertório emocional de cada um

Se tudo era de fato voltado para tal projeto, não resta dúvida de que as crianças, desde muito cedo, se sentiram instrumentalizadas – até porque a divulgação das adoções ajudavam a carreira artística de Flordelis. Já portadoras de carências emocionais, foram se desestabilizando ainda mais numa comunidade sem nexo e sem relação afetiva parental. Dois especialistas consultados por ISTOÉ no campo da psiquiatria mas que não querem seus nomes revelados por questões éticas devido ao fato de não terem conhecido os filhos pessoalmente, dizem, no entanto, não terem dúvidas de que, ali, um irmão podia se dar bem com o outro, mas já se daria mal com um terceiro, o mesmo ocorrendo em relação ao pai e à mãe, e isso foi se alastrando por todos – da mesma forma que ocorre em seitas que se tornam belicosas e perigosas. A dramaticidade, o subterfúgio, a mentira, a omissão, tudo fica latente. A linguagem já não mediatiza as relações carentes de sólido amparo amoroso. “Quando foram adotadas, ainda crianças, elas podem ter trazido histórico de abusos, agressões e frustrações, nem sempre visíveis. Se os pais foram incoerentes com os princípios que cobraram, os filhos hoje talvez apresentem transtornos afetivos e comportamentais. Assim, criamos os nossos próprios algozes”, afirmou a psicóloga Marisa Lobo.

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Um ponto importante a ressaltar: isso independe de ser filho biológico ou adotivo. Não se trata, em hipótese alguma, de dizer que a adoção é arriscada. Ao contrário: ela tem de ser estimulada no Brasil. Errado é não dar suporte que atenda às carências nutricionais, amorosas e emocionais de uma criança. “O problema não são filhos adotivos. O problema é a formação estrutural da família”, diz Roselle Soglio, que segue uma metodologia psicossocial como uma das mais conceituadas peritas criminais do Brasil. “Não importa se é filho natural ou adotado, o que conta são as relações interpessoais mal resolvidas”. As mais modernas teorias da neurociência são unânimes em conceber a personalidade como uma constante dinâmica entre o temperamento (genético) e o ambiente, funcionando, o segundo, como modulador do primeiro. Estudos comparativos mostram que, muitas vezes, um casal não transgressor, que tem um filho biológico e um filho adotivo sem que tenha sequer conhecido os pais dessa criança, acaba vendo o filho biológico delinquir e o adotivo se tornar um grande profissional. Também ocorre o inverso. Em suma, filhos educados no mesmo ambiente podem possuir índoles diferentes. No caso de Flordelis, o filho que admitiu o assassinato é biológico, o filho que comprou a arma é adotivo.

O mesmo ambiente não modulou a genética herdada nem a genética adotada. E deixou claro que cada criança foi crescendo sozinha com seu próprio repertório emocional.

Fonte: istoe.com.br

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